O baterista de todas as bandas

Duda Lazarini 2Você pode até não reconhecer o nome, ou o rabinho de cavalo já branco cruzando seu caminho durante uma balada da cidade. Mas é certo que já ouviu e dançou muito ao som das baquetas de Duda Lazarini, que está completando 30 anos de carreira. Balaco, Pó de Café, Dr. Ostrócio e A Selva são alguns dos projetos que estão sob sua batuta.

Natural de Barretos, Duda está em Ribeirão Preto desde 1986 e já tocou em praticamente todos os lugares possíveis da cidade. E com um currículo que abrange Guilherme Arantes, Sambô e a cantora italiana Barbara Casini, ele comemora três décadas dedicadas à música nesta quarta-feira (12/03), com um show de releituras do jazz e da música brasileira. Entre as participações especiais, estarão Murilo Barbosa (piano), Rubinho Antunes (trompete), Bruno Barbosa (contrabaixo), Marcelo Toledo (saxofone), Mauro Zacharias (trombone), Leandro Cunha (teclados) e Vanderlei Henrique (saxofone).

Confira a entrevista que ele concedeu ao Varal Diverso.

Nos anos 1980, você encontrou boas oportunidades em Ribeirão como músico?
Sim. Me mudei pra poder justamente trabalhar como músico e, nesta época, Ribeirão tinha uma noite muito promissora. Eu trabalhava em casas noturnas tocando de segunda a segunda.

Duda Lazarini e Mauro Zacharias, em 1991, na Fascinação

Duda Lazarini e o trombonista Mauro Zacharias, em 1991, na Fascinação Banda Show

Como foi que tudo começou?
Toco desde meus 16 anos, profissionalmente, mas meu primeiro trabalho importante foi com a Fascinação Banda Show, de Taquaritinga, e eu entrei lá com 24 anos.

Quais foram os momentos mais importantes e que te consolidaram como baterista?
Acredito que todos projetos que participei foram muito importante para minha formação, mas posso destacar o período de 7 anos que fiquei na Fascinação (1989 até 1996), e de 1998 até 2001, quando acompanhei Guilherme Arantes por todo o país e gravei o disco Aprendiz com ele.

Como tem sido suas experiências no exterior? Você nota alguma diferença entre a recepção do público brasileiro e do público internacional?
Toquei na Itália com o musico clarinetista Gabriele Mirabasi e com a cantora Barbara Cassini, além de ter participado, em Bogotá (Colômbia), do Festival Internacional da Canção Infantil Caribenha com o músico Márcio Coelho. Lá, também dei palestras sobre ritmos brasileiros. Em se tratando de exterior, sim, nossa música é muito respeitada e o público é extremamente diferente. As pessoas são muito mais receptivas ao que tocamos e nos tratam como verdadeiros artistas.

Duda Lazarini 3

Como apaixonado pela música instrumental, quais são suas grandes influências?
A música instrumental sempre foi muito importante, pois como músico encontrei a melhor forma e liberdade de expressão com ela. Entre minhas principais influências estão Miles Davis, Astor Piazzola, John Coltrane, Art Blakey, Max Roach, Banda Black Rio, Chick Corea e Bill Evans.

Duda Lazarini 1Nunca pensou em viver na capital por conta do mercado de trabalho?
Com 4 filhos pra criar, optei por morar em Ribeirão pela qualidade de vida. Morei um ano em Sampa, mas não deu para levá-los, então tive que ficar por aqui mesmo.

E o que podemos esperar do show de quarta-feira?
Nesse show faço exatamente o que sempre fiz. Armei um repertório para o público que acredito ser o ideal, com apenas uma música minha. Escolhi músicas de alguns amigos que ainda não foram gravadas, além de um arranjo especialmente feito para bateria da música “Conversa de botequim”, de Noel Rosa e Vadico.

Duda Lazarini Leandro Cunha Lisboa

Duda Lazarini e o tecladista Leandro Cunha, em Lisboa (Portugal)

SERVIÇO
Duda Lazarini: 30 anos
12/03 (quarta), às 20h30
R$ 2 (comerciário) / R$ 5 (meia) / R$ 10

Auditório do Sesc Ribeirão Preto
Rua Tibiriçá, 50 (Centro)
Informações: 3977-4477

Texto: Francine Micheli
Edição: Paulo Gallo
Fotos: Arquivo Pessoal/Divulgação

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A rua em preto e branco

Cabeças imensas andam aparecendo nos muros da cidade e têm atraído os olhares dos mais curiosos. O traço preto, sempre minimalista, é preenchido pelo branco, quase uma afronta à batalha de cores travada entre os grafiteiros mais experientes.

Foto: Francine Micheli

Foto: Francine Micheli

O artista em questão é Fernando Stéfano que assina as obras como “Pink”, apelido dado pelos amigos há um tempão por causa da dupla Pink & Cérebro. Na bagagem artística, nada de cursos nem muita frescura, mas uma intensa vida de molecagem no Jardim Maria das Graças, em Ribeirão Preto, onde sempre morou. Ele diz que aprendeu tudo na rua e que pratica o desapego toda vez que termina um graffiti. “A obra é da rua e a rua é de todos. Está livre para ser apagada ou modificada”.

Foto: Divulgação/Arquivo pessoal

A simplicidade dos traços chama atenção, especialmente pelas características de ilustração que eles carregam. E não é à toa que a mão boa deu ao Pink uma profissão: hoje, além de artista de rua, ele também é tatuador e acredita que o desenho serve pra causar alguma reflexão nas pessoas.

Quando quer algo diferente, investe em algumas cores — mas não muitas. O mínimo pra não ser reconhecido como um artista monocromático.

Como e quando começou o seu envolvimento com as artes e quando decidiu ser artista de rua?
A arte sempre foi presente em minha vida, mesmo que sem senso estético ou criativo. Com o tempo procurei me informar e aprender sobre esse universo da arte. Sempre vi e não entendia quem fazia desenhos nas ruas e isso sempre me intrigou. No ano de 2000, participei de uma oficina e vi realmente como era a ação de um grafiteiro, e somente após quatro anos comecei a praticar. Conheci todos os grafiteiros da cidade e, com o tempo, o processo criativo passou a ser mais intenso em minha vida e assim consegui desenvolver meu estilo.

Você carrega traços de ilustrador. Foi o graffiti que te influenciou na ilustração ou o contrário?
O graffiti muitas vezes limita, pois não pode existir cópia e isso força você a criar seu próprio desenho e estilo. No meu caso, ajudou muito.

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Qual a mensagem que você tenta passar com seus personagens espalhados pelos muros da cidade?
Quando saio de casa pra pintar, tenho que me organizar, gastar dinheiro e tempo. Primeiramente faço o graffiti para os amigos, pois existe uma disputa nas ruas, mas a repercussão que essa linguagem toma é muito atrativa e significativa pra mim. Vários artistas veem o grafiteiro como um vitimista, mas eu vejo como alguém que escolhe agredir a cidade “livremente”, sem dor na consciência. E isso sempre vai ser bem aceito por alguns e incomodará a outros. Não quero passar alguma mensagem, mas sei que o graffiti gera alguma reflexão nas pessoas. Isso se torna motivação pra que o trabalho ainda seja feito nas ruas, e a rua me acolheu.

Foto: Divulgação/Arquivo pessoal

Por que você escolheu o preto e branco para os seus personagens?
Grafito há sete anos e sempre fui minimalista. Com o tempo me adaptei ao preto e branco e ao que conseguia construir com essa simplicidade.

Já apagaram muitos trabalhos seus em muros? Qual é o sentimento e como você lida com isso?
Depois que o trabalho está completo, o desapego é o sentimento mais sensato e efetivo que se pode ter com a obra, pois ela está na rua e a rua é de todos. O desenho está livre para ser apagado ou modificado e isso só se torna agressivo quando vem de outro grafiteiro.

Foto: Divulgação/Arquivo pessoal

Quais são suas influências?
Todos os trabalhos podem ser influências, mesmo que apenas em algum detalhe. Mas existem artistas que me influenciaram demais, como Osgemeos, Onesto, Aryz, Robin, Tr e Dida.

Já exibiu seu trabalho em outras cidades/países?
Viajei pouco pelo graffiti, pois as maiores conquistas que tive foram aqui em Ribeirão e o graffiti se tornou um hobby que às vezes me proporciona trabalhos.

Como você resume a sua arte?
Eu comigo mesmo.

Foto: Francine Micheli

Foto: Francine Micheli

Texto: Francine Micheli
Edição: Paulo Gallo

A garota das corujas

Se sua rotina inclui cruzar as ruas de Ribeirão Preto, você provavelmente já notou corujas coloridas disfarçando a feiura de alguns muros da cidade. Elas começaram a surgir em 2012, imensas e com certa vontade de desafiar a polícia e os baldes de tinta que ainda insistem em apagá-las.

Foto: Divulgação/Arquivo pessoal

Corujex. Foto: Divulgação/Arquivo pessoal

As corujas são, na verdade, um personagem. Chama-se Corujex e é obra da imaginação e do talento de Lola Cauchick, grafiteira que espalha seus traços pela cidade desde 2005. Integrante do crew Vixe — coletivo de grafiteiros de Ribeirão que conta também com Lelin,Lola + Pink. Foto: Divulgação/Arquivo pessoal Pink e Dida — Lola diz que deve a aptidão artística a sua avó, com quem morou durante a infância em uma casa de Cohab. “Ela (avó) não tinha um ateliê, então pintava na sala com as telas jogadas no chão ou no quintal mesmo. E ficava olhando com meu irmão e depois de um tempo a gente colocava a mão na massa. Aí tinha cachorro que corria e passava em cima das telas, era uma bagunça, mas muito divertido.”

Além de artista de rua, Lola é também tatuadora e trabalha com o marido Lelin no estúdio do casal, o Judá Tattoo. Até hoje, a menina das corujas nunca frequentou um curso regular de artes e se orgulha de suas criações. Além da coruja, outros animais já nasceram das mãos dela. Para ver o trabalho da Lola, é só andar pela cidade e prestar uma atenção extra às cores que já não passam tão despercebidas pelos nossos olhos apressados.

Foto: Francine Micheli

Foto: Francine Micheli

Leia na íntegra a entrevista que Lola concedeu ao Varal Diverso:

Por que você escolheu a coruja como marca registrada?
Eu ainda desenho os outros animais, mas a coruja tem uma história engraçada. Quando a pintei pela primeira vez teve gente que achou bem estranho e disse que era mau agouro. Aí fui pro Chile e tinha umas latas de válvula bem dura pra gente usar, então tive que fazer um desenho simples pra dar certo com o tipo de material que a gente tinha pra pintar. Fui mexendo nela e aperfeiçoando, e nasceu a Corujex que pinto hoje nas ruas.

Foto: Divulgação/Arquivo pessoal

Hoje, o graffiti e a intervenção urbana ainda não são compreendidos por grande parte da população. Ainda acontece de chamarem seu trabalho de “pichação” e apagarem um muro desenhado?
Ao meu ver, pichação e graffiti são arte. Existe quem se dedique à tipografia do picho e leve isso bem a sério, mas a população não gosta mesmo. Já o graffiti tá na TV como uma coisa boa pra ser bem aceita, e agora já passa até em novela. Mesmo assim tem gente que não gosta, porque eu acho que não gosta de arte nenhuma. Aí apaga mesmo, xinga a gente na rua, mas agora é cada vez mais raro.

Você já participou de eventos artísticos no Chile e no Equador. O que você fez por lá? Conheceu novas referências? Como foi?
Nesses dois países fui a convite de instituições artísticas para participar de murais e pintar com artistas de várias partes do mundo. Conheci sim novas referências e fiquei muito feliz de poder deixar minha arte em outros países, também por saber que existem artistas como eu que viajam horas de avião, ônibus e enfrentam uma série de obstáculos para somente pintar.

Lola no Equador. Foto: Divulgação/Arquivo pessoal

Lola no Equador. Foto: Divulgação/Arquivo pessoal

Você é uma das poucas mulheres envolvidas com arte urbana. Tem alguma diferença pra você atuar num ambiente dominado pelos homens?
As mulheres não são poucas só no graffiti, nós somos minoria na arte. Eu não sei porque isso acontece, mas com certeza não é bom.

A tatuagem te levou para o graffiti ou foi o contrário?
Foi a tatuagem que me levou para o graffiti. Na verdade, eu era só body piercer, em 2004, quando fui trabalhar com o Ton. A loja dele era um lugar muito rico pra quem ama arte. Ton é o mais antigo grafiteiro de Ribeirão Preto, hoje não vive mais aqui, mas ele é tatuador e foi lá onde conheci meu marido Lelin. Comecei a namorar e a logo pintar junto com ele, já tinha muita familiaridade com as cores, desenhos e tintas, então foi tudo muito natural.

Foto: Francine Micheli

Foto: Francine Micheli

Quais as suas referências nacionais e internacionais no graffiti?
Minha referência é minha avó, eu aprendi muito sobre as cores com ela.

Sua família aceitou numa boa quando você disse que queria ser artista de rua?
Minha família achou ótimo!

Acompanhe o trabalho de Lola:
Site oficial: http://www.lolacauchick.com/
Fan page: https://www.facebook.com/corujex

Texto: Francine Micheli
Edição: Paulo Gallo

Verônica Ferriani escolhe Ribeirão para lançar seu segundo disco

“Porque a boca fala aquilo do que coração tá cheio” será lançado nesta sexta-feira (18/10) e vem recheado de experimentalismo instrumental e canções autorais

O palco de Teatro Municipal de Ribeirão Preto foi o local escolhido para o lançamento do disco Porque a boca fala aquilo do que coração tá cheio, da cantora e instrumentista Verônica Ferriani, no dia 18 de outubro, às 21h. Não por acaso, Verônica volta à sua terra natal trazendo na bagagem a experiência que conquistou ao longo de mais de 10 anos de carreira junto a nomes como Chico Saraiva, Beth Carvalho, Ivan Lins, Jair Rodrigues, Tom Zé, Toquinho e tantos outros ícones da música brasileira.

A veia compositora de Verônica veio à tona e ganhou apoio do produtor Gustavo Ruiz (irmão de Tulipa Ruiz), que se juntou ao seu antigo parceiro de produção Marcelo Cabral. Os dois assinam também a direção musical do espetáculo, que traz os músicos Guilherme Held (guitarra), Sergio Machado (bateria) e Rodrigo Campos (guitarra e violão).

Amor é amor, ué

“Esse disco nasce do desejo e da coragem de sair da zona de conforto”, disse Verônica. “Sempre gostei de escrever e desde criança tive por perto o violão, mas só recentemente tive motivos e inspiração para compor. Virou um vício. Passei um desses processos mais intensos de reflexão e revisão interior e ali as músicas foram surgindo.”

Sobre o show de lançamento do disco, Verônica explica que é uma história de amor, já que todas as músicas falam sobre o tema. Mas os românticos em excesso que se cuidem porque ironia, sarcasmo e vingança feminina também fazem parte dos recortes que cada canção proporcionou ao tema.

E as intenções de Verônica são tão apaixonadas quanto o novo disco. Depois de Ribeirão, a cantora parte para o Japão com sua nova turnê. E antes de tudo isso, Verônica disponibilizou pra gente a música inédita “Estampa e só”, que você pode ouvir aqui:

Leia abaixo a entrevista exclusiva que ela concedeu ao Varal Diverso.

Verônica, do início da sua carreira, em 2003, é possível notar um certo “alargamento” musical que começou no samba e partiu para outros experimentos. Como tem sido essa fusão de influências?
Na verdade, comecei cantando, paralelamente, dois trabalhos um tanto diversos entre si, o que talvez já demonstrasse esta gama de referências e desejos musicais. De um lado, a participação nos shows de Chico Saraiva, trabalho autoral com referência na MPB de Guinga e Tom Jobim, mas bastante experimental, principalmente no sentido melódico/harmônico, vencedor do Prêmio Visa 2003. De outro, as rodas de samba raiz que me levaram a longas temporadas no Carioca da Gema e no Ó do Borogodó, às participações junto à Velha Guarda, Beth Carvalho e Moacyr Luz. É certo que o samba, também por ser um gênero mais popular, me abriu espaços também mais populares; porém, a vontade de trabalhar com repertório autoral já se mostrava presente. Até que, em 2009, gravei o disco Sobre Palavras, com 13 canções inéditas de Chico Saraiva e Mauro Aguiar, projeto coletivo que até hoje segue em turnês esporádicas. Alguns meses antes deste disco, ainda em 2009, tinha gravado meu primeiro disco solo, homônimo, com apenas 2 inéditas e 8 releituras de canções menos conhecidas de compositores como Paulinho da Viola e Gonzaguinha, após uma profunda pesquisa junto ao BiD, produtor musical. Embora estivesse bastante ligada ao samba e este disco tenha como linha mestra o gênero, a ideia foi fazer uma pesquisa de sonoridade com influência setentista, com piano rhodes, e muita percussão, sem bateria, como influência do samba mas também da música latina, africana e da MPB contemporânea. Antes, eu havia declinado a dois convites para gravar discos tradicionais do gênero, por sentir justamente que este não representava a totalidade de minhas referências. O maior passo nesse sentido do “alargamento” musical talvez esteja de fato ocorrendo agora, ao compor e gravar minhas próprias canções. Sempre achei que isso fosse acontecer um dia, principalmente ao voltar a me aproximar do violão e também por gostar desde sempre de escrever. Faltava algo que me inspirasse definitivamente, e tempo para me dedicar a isso, o que veio em 2011. O fato de estar amparada exclusivamente pela galera da nova geração também é, sim, uma novidade, embora meu primeiro encontro com Marcelo Cabral e Gustavo Ruiz tenha sido ainda em 2007, ao gravarmos o Programa Som Brasil (TV Globo). Minha história com Cabral vem ainda de antes, pois estudamos música e começamos a tocar juntos. A verdade é que acredito que eu ainda vá fazer muitos discos diferentes entre si, tenho em mente projetos diversos e vontade de experimentar vários caminhos. Minha coerência é minha liberdade, amparada provavelmente no momento emocional em que eu me encontrar a cada novo trabalho. Por isso o nome do disco se explica também nesse sentido: “Porque a boca fala aquilo do que coração tá cheio”.

Ribeirão Preto é sua cidade natal, mas seu nome ganhou notoriedade a partir de apresentações no Rio de Janeiro e em São Paulo. Por que escolheu Ribeirão para lançar seu segundo disco?
Apesar de eu ter começado a cantar já morando em São Paulo e frequentando o Rio, tenho uma conexão emocional forte com a cidade através de minha família, que ainda mora aqui, amigos, e até pelo fato de eu ter tido, através deles, meus primeiros contatos e referências em música. Apesar de morar em São Paulo há tantos anos, de alguma forma ainda me sinto mais uma garota do interior do que uma paulistana cosmopolita.

Depois daqui, você sai em turnê pelo Japão. Haverá algo de diferente no repertório dessas apresentações? Por que o Japão?
Como os shows no Japão serão também pelo lançamento do disco, o repertório será o mesmo. Há cerca de quase um ano recebi este convite da Embaixada do Brasil em Tóquio, e para o projeto “Novas Vozes do Brasil”, que valoriza justamente o que tem sido feito pela nova geração aqui. Percebendo que o disco ficaria pronto a tempo, sugeri que levássemos este show. Eles ouviram o disco, ainda em fase de pré-produção, e gostaram, decidindo inclusive lançá-lo em edição japonesa simultânea, pela Latina.

Seu segundo disco é totalmente autoral. Como foi o processo de composição e a escolha das influências?
Em 2008 fiz minha primeira música, “Tu, neguinha”, ao lado de Giana Viscardi. Ali foi nascendo o desejo de compor, mas somente no início de 2011, quando eu estava muito próxima ao violão e voltando a escrever — em um mês sabático na praia de Caraíva, na Bahia —, é que senti ter inspiração e tempo pra isso. Lá fiz 6 ou 7 músicas e, a partir daí, a dedicação virou quase diária, aonde quer que eu estivesse. Foram quase 30 músicas fechadas, das quais escolhemos 11 para o disco.

O que o público poderá esperar no lançamento do seu disco no Teatro Municipal, no dia 18/10?
Um show dedicado exclusivamente às canções do disco, sem concessões, e algumas poucas de autores que por algum motivo tenham me inspirado ou façam parte deste universo.

Quais músicos de Ribeirão Preto que você considera especiais na sua trajetória de alguma maneira?
Logo que comecei cantei algumas vezes com a dupla de acordeonistas Gilda Montans e Meire, junto também ao Carlito e Deva. Cantei algumas vezes com o saudoso Mário Feres, tenho feito alguns shows dedicados ao Vinícius de Moraes também junto ao Alê Machado. Esta semana estou gravando uma faixa no novo disco de Dimi Zumquê, que também tem como convidada Elza Soares.

Há alguma faixa especial do novo disco que tem uma história inusitada, diferente?
Acho que algumas passagens de diversas músicas trazem detalhes únicos, que irão provocar de alguma forma quem as ouvir. Há um lado bem passional no disco, outro um tanto frágil, diferente do blasé e da segurança que hoje muitas composições embutem a seus personagens.

Onde o disco estará à venda?
Nos shows de lançamento o disco estará à venda por R$ 10, uma contrapartida ao ProAC (edital estadual que possibilitou que o projeto fosse patrocinado pela Bebidas Ipiranga e Uniforja), e que achamos importante a fim de ampliar o acesso à música autoral, bem como os ingressos a R$ 5 e 2,50 (meia). Depois disso, o disco estará em venda exclusiva na Livraria Paraler e, a partir de novembro, nas lojas do ramo.

VERÔNICA FERRIANI
Porque a boca fala aquilo do que o coração tá cheio
18/10 (sexta), às 21h
R$ 2,50 (meia) / R$ 5

O Teatro Municipal fica na praça Alto do São Bento, s/nº, no Jardim Mosteiro. Telefone: (16) 3625-6841

Texto: Francine Micheli
Edição e vídeos: Paulo Gallo
Fotos: Divulgação

Entrevista: Fernanda Marx

Exatamente um ano após lançar sua carreira solo, a cantora ribeirão-pretana Fernanda Marx começa a colher os frutos de sua paixão pela música. Fernanda estreou seu projeto solo em outubro passado, no Teatro Minaz, sua segunda casa. Depois fez várias apresentações, uma delas no Sesc (nós acompanhamos, leia mais aqui), e outra na Fnac, palco de seu próximo show. Isso sem contar as participações com bandas e músicos da cidade.

No mês de outubro, Fernanda Marx já tem três apresentações marcadas, anote aí:

  • 04/10 (sexta), às 20h: no RibeirãoShopping, participação no show de Larissa Baq;
  • 10/10 (quinta), às 19h30: na Fnac, cantando Gonzaguinha;
  • 18/10 (sexta), às 19h: no Shopping Iguatemi, apresentando clássicos da MPB.

Fernanda Marx nos concedeu uma entrevista especial para contar mais sobre sua carreira musical e sobre suas próximas apresentações.

Varal Diverso: Quando foi que você se interessou por música?
Fernanda Marx: Desde pequena. Minha família é muito musical… Então, com uns 6, 7 anos, estudei piano com minha tia Neninha (o nome é Maria Helena, esse é o jeito de falar de criança). Enquanto isso, sempre ficávamos horas cantando em casa — eu, minha mãe e irmãos. Depois, na escola, fazia aula de flauta e Canto Coral com a professora Alcita Coelho. E, aos 13 anos, entrei na Cia. Minaz. Primeiro, no Coro Infanto Juvenil; depois, no Coral Minaz, passando pelo Coral de Câmara e, depois, no Madrigal Minaz. Durante todo esse período, fui regida pela diretora e maestrina da Cia. Minaz, Gisele Ganade, com quem também fiz aula de canto particular e é quem me ensinou e me direcionou muito na música.

Quais são suas principais influências?
Os grandes nomes da música brasileira: Chico Buarque, Tom Jobim, Vinícius de Moraes, Baden Powell, Noel Rosa, Cartola, Djavan, Caetano Veloso, Lenine, Paulinho Moska, Gilberto Gil, Maria Bethânia, Elis Regina, Gilberto Gil e muitos da nova geração! Faria uma lista enorme.

Você lançou sua carreira solo há exatamente um ano. Qual é a o balanço que você faz deste período?
Muito positivo! De lá pra cá, novos contatos, parcerias e oportunidades apareceram. Fora que também foi um ano de decidir novos caminhos, que irão ditar o que acontecerá daqui pra frente. E, também, como sempre, mais um momento de amadurecimento.

Foi bem recebida pelo público?
Muuuuito! De uma forma tão natural e muito bonita. Foi calorosa demais e eu sempre devolvo esse calor aos que já fazem parte do meu público, e busco conquistar novos espectadores com esse calor também. Isso foi criando uma proporção que eu não dimensionava e que me deixou muito satisfeita e consciente de que, a cada dia, o trabalho tem que ser feito com mais e mais responsabilidade e respeito para com quem faz parte dele e também está curtindo ele, para que isso nunca acabe.

Além da carreira solo, você participa de outros projetos. Quais são eles?
Atualmente participo dos corais da Cia. Minaz, que são: Coral Minaz, Coral de Câmara e Madrigal Minaz. Além de outros grupos que são coordenados por professores e monitores da Cia. Minaz, como o Coral Aorp e Coral Aquarela. Fora a Cia. Minaz, integro também há 3 anos a banda Missionários do Blues, que acaba de completar 17 anos de existência. Sem contar os grupos e músicos dos quais sou parceira que volta e meia divido o palco, como a banda Balaco, Larissa Baq, Srta. Zirma, Juliana Mangolin, entre muitos outros.

O sonho de todo cantor e artista é gravar um disco, imagino que o seu também, certo? Você pretende gravar? O que impede ou dificulta esse processo?
Desejo e já estou começando o processo para gravação de um disco de músicas autoriais. Agora estou no processo de busca de compositores parceiros, criando e dando forma para o disco mesmo. Acredito que o que ainda possa criar uma certa dificuldade são os custos de uma boa gravação, mas agora temos editais e projetos que buscam facilitar a gravação de discos autorais.

Como surgiu a ideia deste projeto em homenagem a Gonzaguinha? Pretende levá-lo para outros lugares também?
O projeto de revistar a obra do Gonzaguinha surgiu em novembro do ano passado, quando fui convidada pela programadora da Fundação Feira do Livro, Laura Abbad, para integrar o projeto “Palavra Cantada”, dentro das ações do Entre Feiras. Então, perguntei se poderia escolher um compositor, e me foi dado esse direito. Não tive dúvida: Gonzaguinha! Sempre ouvi suas canções em minha casa, muitas vezes ouvia com outros intérpretes, mas a criação desse cantor e compositor carioca sempre fez parte de minha trajetória musical. Então, abracei a ideia e, como ficou muito gostoso o resultado, decidi não largar mais e ainda ampliar. Iremos levar para outros locais sim, já estamos contatando produtores e agentes para colocar o nosso Gonzaguinha na estrada.

Quem se apresenta com você nesse show?
A primeira formação desse show foi feita com o violonista Alessandro Machado e com o baterista Gabriel Nascimento. Agora, fazem parte da banda o Alessandro Machado, Inácio Koser (bateria) e Eder Bortolato (baixo). Felizmente estou acompanhada de um time de feras e parceiros!

É difícil conseguir espaço para se apresentar em Ribeirão?
Realmente não acho! Acho que Ribeirão está crescendo, pois tem acontecido um movimento forte da parte artística para tal, que está sendo atendida, de forma ainda lenta, mas não podemos dizer que não está acontecendo essa mudança.

Quais são seus próximos projetos?
Além da produção do CD autoral, eu e Larissa Baq em breve divulgaremos o projeto que estamos criando juntas, com direção musical de Mauro Zacharias. O projeto trará à tona — e de forma inusitada e moderna, assim como eles — duas referências da música brasileira que foram considerados “malditos” (que não tinham nada disso). É só esperar!

Qual é o significado da música na sua vida?
É o que faz pulsar, o que me move!

Texto e fotos: Analídia Ferri
Edição e vídeos: Paulo Gallo